Deixar de fazer as coisas da forma que faço normalmente.
Perceber quando essas coisas já não servem.
Apanhar-me na curva.
Mudar.
Primeiro quero fazer diferente mas não consigo.
Tento, ainda assim. Mas passado pouco tempo volto àquilo que me é familiar.
Continuo a tentar.
Consigo mudar por mais um bocadinho de tempo.
Percebo que está tudo diferente mas a mente não me larga.
Sinto culpa e vergonha e começo a ter dúvidas.
Será que não devia ter mudado?
Será que isto é mesmo o melhor para mim?
Será que estou a ser uma má pessoa?
(Coisas assim.)
Faço um esforço para acalmar os pensamentos e reforço para mim mesma que fiz o melhor que podia. Que não faz mal desistir.
Falhar custa-me menos do que não tentar.
Falhar também é experiência.
Desistir das coisas custa-me, porque parece que não aprendi nada.
Mas, às vezes, desistir é só saber aceitar as coisas como elas se apresentam em cada momento - sem tentar acrescentar nada.
Desistir abre espaço. Liberta.
Às vezes, desistir de algo é a única maneira de não desistir de mim.
Com o tempo, começo a achar que a dúvida, como tudo o resto, também só quer ter um espaço para existir e ser ouvida. Então ouço. E respondo a mim mesma compassivamente: está tudo bem. Estás a fazer tudo bem.
Procuro encontrar um caminho do meio. Um caminho que não me afaste de tal forma de mim mesma que às tantas já nem sei bem de que terra sou.
Avanço e recuo, às apalpadelas, até encontrar esse centro.
Aquieto os pensamentos tentando todos os caminhos que acho possÃveis.
E nesse processo, devo lembrar-me de algo: não devo fazer nada que seja apenas uma confirmação de um valor que não confio que tenho. O exterior raramente me devolve as coisas que preciso de encontrar primeiro dentro de mim.
Ultimamente tenho sentido que é possÃvel sentir amor sem acrescentar nem tirar nada.
Na prática de simplesmente amar, acontece algo incrÃvel: recebe-se mesmo qualquer coisa de volta. Não de uma forma concreta. Não no campo do fazer ou da acção. Não necessariamente desembocando em algo expressivo como uma relação romântica. Mas como um preenchimento interno, celular, orgânico. Que fica a reverberar em tudo o que faço, pelas pessoas de quem gosto, sem expectativas nem desassossego.
Não tenho dúvidas de que sou amada por muita gente e de que serei amada por muitas pessoas ao longo da minha vida. Não estou dependente da validação exterior ou de reciprocidade para sentir as diferentes possibilidades do amor.
A beleza disto é precisamente esta: aprender a amar sem ter o desejo constante de estar em relação libertou-me de um peso gigante. Libertou-me do constante ruÃdo mental. De uma insatisfação disfarçada de desejo. Da armadilha da expectativa.
A fantasia também cabe dentro da realidade. Mas não precisa de se transformar nela.
Quero continuar a dar o melhor de mim mesmo correndo o risco de perder tudo o que ofereço - já aconteceu, mais do que uma vez. E não só sobrevivi, como prosperei.
Creio que isto se traduz um pouco no “poder da desvinculação” de que fala o Stutz - ser capaz de dizer em silêncio: “I’m willing to loose everything.” E nesse processo perceber que a minha integridade não depende do que recebo de volta. Que nada é de facto permanente. Que é possÃvel querer com toda a minha energia uma coisa e ainda assim ser capaz de a libertar; de me despojar de tudo o que quero mesmo continuando a assumir o trabalho que tiver de ser feito.
Para mim, neste momento, este é o poder criador do amor e da gratidão.
“O que estamos aqui a fazer é entregar-nos a algo que não compreendemos por completo.
Mas o que quer que exista por aà quer estar ligado a toda a gente.”
“Às vezes a palavra é a única ação possÃvel.”
Por trás dos meus quereres e dos meus desejos ajo com cautela e paciência. Porque sei que a minha intenção é respeitar o silêncio, o ritmo, a disponibilidade possÃvel em cada momento.
Há momentos em que tento não interferir, nem com palavras. Porque aposto na continuidade - no que pode ser. E para o que puder ser poder acontecer de facto, isto é necessário. Ficar quieta. Aquietar a mente. Aquietar a constante necessidade de agir sobre as coisas. Aplicar essa energia em práticas que me alimentam e libertam.
Não há segredos. Eu viajo nesse espaço vazio que vai criando ondas e se vai reflectindo naquilo que sou.
O que o outro não manifesta. O que a vida não desenrola. O que fica por acontecer…
Nos silêncios inexplicáveis é como se existisse um pedido de equilÃbrio que reverbera incessantemente - move-te, vai ao teu encontro, como é que estás a acontecer? O que está vivo dentro de ti? O que é que não podes parar?
Então danço, durmo, teço, leio, ouço, cozinho, aspiro, cuido, limpo, imagino, salto, liberto, canto, escrevo, rio, choro, converso, interpreto, exploro, abro, valorizo, valido, amo.
Foi esse o convite que decidi aceitar. E surpreendo-me a cada reencontro comigo mesma.