the hands show the way of the heart

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Come as you are

On
September 26, 2021

Acabo sempre por ir ao encontro das coisas e das pessoas que são como eu. Que põem em palavras coisas que sinto. Que se vestem como eu gostava de me vestir. Que dão abraços melhores do que eu. Que elevam, talvez, aquilo que no fundo já sou.


Tenho a sensação que somos todos um bocadinho assim.


Porque, é fácil encontrar justificações para continuarmos a ser de um determinado jeito. Há informação que chegue. E sempre alguém que acredita no que já acreditamos.


Houve alturas em que achei que o que realmente me faria mais rica era rodear-me de pessoas diferentes de mim - para poder ter acesso a mais ângulos. Mas com o tempo comecei a sentir-me desconfortável. E a perceber que isso era algo que me pesava e que me impossibilitava de investir verdadeiramente em quem eu sou. 


Num esforço constante para caber, adaptar-me e crescer, num ambiente que, no fundo, era inóspito - como plantas antagónicas que em conjunto se inibem mutuamente.


Por exemplo, no outro dia estava com uma amiga que dizia "a vida é muita dura!". E fiquei a pensar se acredito nisso. As minhas ideias são minhas - têm a ver com os significados que retirei das experiências que tive. 

(Tal como as dela.) 


Acho importante pensar sobre o que retiro realmente das experiências dos outros. Não entrando em fusão com isso. Construindo dentro de mim um limite qualquer que não me separe mas também não me iniba de saber no que acredito de facto.


Parece-me que estamos a viver uma época em que tudo é extremamente pessoal. Identificamo-nos com certas coisas e temos necessidade de criticar outras porque de alguma forma nos ofendem - mesmo que nunca tenhamos sequer conhecido a pessoa em questão. Fico incomodada com isto e penso que no fundo não sou assim tão diferente destas pessoas. Percebo que a falta de empatia me ofende. E se, por um lado, isto me dá vontade de rir. Por outro, é um assunto sério. É algo que preciso de olhar. 


Afinal, onde está a minha empatia pelos não empáticos? E será que existem pessoas não empáticas? Ou será que simplesmente não sentem empatia pelas mesmas coisas que eu?


É assim para qualquer característica que temos, parece-me.


A maior arrogância é achar que sou melhor que o outro quando no fundo ele é só diferente de mim.


Essa auscultação tem sido ultimamente o meu tema de reflexão. A consciência do que sou. Não através dos espelhos que o outro me dá mas através daquilo que são as armadilhas de achar que a minha forma é a forma certa.


É impossível evitar a convivência com pessoas que não são parecidas comigo, que acreditam noutras coisas ou que têm outra forma de gerir os mesmos assuntos. Não creio que isso seja um problema ou uma coisa má. Mas às tantas tenho percebido que o grande truque é restringir o meu diálogo. Aceitar apenas o que a pessoa está a trazer com ela e não impor ao outro a minha perspectiva. Se tiver necessidade de partilhar algo, que não seja a partir de um lugar de superioridade ou dominância. É difícil ter esta humildade quando tenho ideias tão fortes sobre algumas coisas. Mas é este o caminho que quero fazer. Menos quereres. Menos certezas. Menos opiniões. Quero sim, ser mais responsável com as minhas "verdades". E nesse percurso, ir reconhecendo sempre que não sei nada. Só assim posso realmente compreender o outro.


Youth by Paolo Sorrentino

On
September 09, 2021


Há muito tempo que não via um filme que achasse tão bonito. 


Vejo muita coisa. E muita coisa que não vale a pena partilhar. (A televisão sempre foi um escape e uma companhia.) Nos momentos mais tensos refugio-me em coisas leves - que me permitam um repouso emocional e mental. Mas nos últimos tempos voltei a estar disponível para coisas mais profundas.


Ontem apanhei este filme no canal hollywood e fiquei surpreendida com tudo. A reflexão sobre a vida, a morte, o que é ser jovem, como nos entregamos à velhice. Os sonhos que se transformam. O olhar sobre as coisas. São coisas sobre as quais penso muito e acho há uma magia qualquer em ver as coisas sobre as quais penso reflectidas por outros e colocadas em imagens - transformadas em história.


Seria tão difícil explicar estas coisas se me pedissem. No entanto, aqui estão elas. 

Look both ways

On
September 07, 2021


Em jeito de diário, 


Tenho andado muita envolvida comigo. Não sei se é bom ou mau mas às tantas é apenas aquilo que é. 


Para o ano faço 40 anos e já ando a antecipar de alguma forma esse momento. Entre as minhas queixas, neuroses, irritações, coisas que me chateiam ou preocupam e tudo o resto que me traz paz, fico aí no meio, a tentar achar tudo espantoso porque se calhar é mesmo, eu é que ainda não cheguei lá.


Há um tempo qualquer para cada coisa. Um tempo que se ocupa de si sem que eu controle nada. Esta percepção colocou-me em contacto com uma liberdade que não conhecia. E então percebi que só me resta render-me a cada momento sem querer moldá-lo às ideias que tenha sobre ele. Não quero dizer com isto que já não me importo com nada. Quero dizer que os caminhos têm que ser feitos dentro, antes de poderem ser percorridos fora.


Portanto, agora sou uma exploradora, caminhante virtual, descobridora de percursos invisíveis. 


Nunca como antes dependi tanto de mim mesma. E isto é um susto. Mas nesse medo ou na consciência desse medo vão-se abrindo os tais caminhos. Deixo que me atravessem uma série de coisas que antigamente me esforçava imenso para mudar. Rendo-me (lá está!)!


Sempre tive muita força e isso por qualquer razão incapacitou-me de uma série de coisas. Achei que podia empurrar tudo com a barriga, que estava safa de melodramas, que tinha sempre escolhas e que nada era de facto irreversível. Enganei-me um bocadinho nalgumas coisas e por outro lado as outras pessoas acharam sempre que essa força me tornava destemida e invencível - o que não é verdade. 


Do outro lado da força existe uma sensibilidade muito grande que me destrona. Fisicamente, sinto-me muitas vezes ir ao chão. Mas é nesse ir ao chão que está uma grande beleza. (Demorei anos a aprender isto.) É nesse ir ao chão que sigo em direção às profundezas das coisas. 


Há sempre um medo muito grande em permitir-me sentir os vazios. Esforço-me muito. A todo o custo, para continuar a resolver tudo e a chegar a todo o lado porque uma parte de mim ainda está agarrada à crença de que não se consegue nada sem luta. Não é verdade. Na ausência de resistência constrói-se uma leveza. E eu busco isso.


Tenho metas e sonhos e coisas que gostava de concretizar mas cada vez mais vou sentido que é no que faço agora que está a maior poesia. Já não quero dizer "um dia de cada vez". Acho que prefiro "um minuto de cada vez", "uma hora de cada vez". Um dia é muito tempo. Porque essas ideias dão-me esperança e alegria mas também me sufocam. Porque sinto que se não chegar lá é porque devo ter falhado qualquer coisa. 


Vou-me então despojando destes artefactos emocionais que andei a cultivar toda a vida. Agarro-me a coisa nenhuma - como se estivesse no mar. E deixo que a vida me encontre. 


Não quero perseguir nada. Estou muito cansada de quem sou nesse lugar de constante apropriação de tudo o que me acontece ou deixa de acontecer. 


A única missão que tenho neste momento é: aprender a confiar.

A Verdade

On
September 06, 2021

Penso muito sobre a Verdade. E falo sobre ela também. Nesse processo, confesso agora: ajo com pouca verdade. No que é realmente importante ou sério, escondo-me e repito o que sempre fiz para evitar qualquer tipo de confronto ou constrangimento maior.


Talvez algumas pessoas achem que só faço aquilo que quero. É verdade que sempre foi assim um bocadinho. Ou seja, sempre estive muito atenta à minha bússola interna e com mais ou menos apoio dos outros, fui seguindo os caminhos que me faziam sentido. Mas um bocadinho não é Tudo. E sendo assim, sinto que ainda estou a viver pela metade.


Há coisas que me preocupam imensamente. Ressentimentos que alimento e que me consomem. Ansiedades que me limitam. Lugares comuns e formas de pensar, agir, achares, que quero deixar ir quanto antes. Tudo isto faz-me sentir uma urgência. Mas até essa urgência é uma armadilha.


Nos últimos dias senti coisas que já senti muitas vezes mas, porque trazem sofrimento, tento sempre camuflar. Arranjo subterfúgios para escapar e sou exímia nisso. Nesse fazer de conta. No fim, como diz a Marta Gautier, "paga-se a factura."


Há um exercício a que preciso de me render constantemente que é o de ser honesta comigo. Não fazer julgamentos do género: estás a ser preguiçosa, atrasas-te sempre, és tão boa amiga... Ou seja, atribuir uma forma qualquer - boa ou má - às coisas. Sinto que é uma perda de tempo. Ser honesta é não ter medo do que sinto ou do que os outros vão sentir. É não Tentar ser seja o que for. Despojar-me de "Quereres".


Ando há alguns anos a trocar de pele. Fui enchendo a minha vida de afazeres e de coisas que me foram empurrando para a frente. E muita coisa caiu. Chorei muito e senti muitos vazios impossíveis de preencher. Achei que queria morrer. Bati no fundo e ganhei impulso mas muitas vezes isso não foi suficiente para sair desses lugares de sombra. O caminho era e é sempre a Verdade. A essência.


A sensação de não ter tempo é avassaladora e faz-me questionar sobre quais são os meus vícios: o stress, o estar ocupada, o "estar sempre lá" para depois me sentir melhor comigo porque fiz tudo bem e fui tão boa pessoa. São camadas e camadas de coisas que não me servem para nada. Mas para cada momento de clarividência há uma estratégia para dar a volta e fazer de conta.


Tenho feito um exercício ultimamente que é escrever sobre coisas que me metem vergonha. Porque percebi que esta vergonha estava tão dentro de mim que até escrever sobre ela me metia medo. Ninguém lê aquilo que escrevo mas algures sentia medo "do que é a minha filha vai pensar quando crescer" e "se eu morro entretanto e alguém descobre estas coisas"... ao observar isto percebi como é fácil contar histórias a mim mesma até nos momentos em que acho que estou a abrir completamente o coração.


Não tenho receitas para isto de se ser realmente verdadeiro. Acho que é uma escuta que cada um tem que fazer de si mesmo. Enfrentando a escuridão nos momentos de escuridão porque só esse abraçar Do Que É vai abrir espaço. Mas partilhar isto aqui é para mim um caminho.

Goodbye. Hello.

On
September 02, 2021

 


No outro dia pensei nas saudades que tenho de mim. A pessoa que apanhava flores e as guardava em livros. 

Deve ter havido qualquer coisa que se perdeu para ter deixado de o fazer. E a todo o custo tentei perceber o que teria sido.

Não se perdeu nada! E perdeu-se tudo. Porque a vida mudou. Deixei de ser uma para passar a ser duas. Agora apanho flores com a Eva. Não as guardo em livros mas fazemos coroas e pomos malmequeres atrás das orelhas - na ilusão de que somos fadas ou princesas e de que a mãe-terra é o nosso reino.

Não se perdeu nada! E perdeu-se tudo.

Não importa passar tempo a tentar resgatar as partes de mim que já morreram e que partiram para outra encarnação. Importa celebrar isto de alguma forma. E esta foi a forma que encontrei: voltei a apanhar flores e a guardá-las em livros :) Agora, consciente de que isso pode deixar de acontecer se não estiver atenta. Que cultivar a simplicidade exige presença. Não deixar ir a essência das coisas mesmo que elas já não estejam lá. Neste caso, não perder  a minha essência.

Há um ano atrás sentia-me muito abalada por não conseguir encontrar magia em parte nenhuma. Isto mexeu muito comigo porque sempre foi algo natural para mim. Mas no fundo a magia não é uma coisa, nem um lugar, nem uma pessoa. É todo um movimento. Um epicentro.

A magia é lembrar-me dos meus sonhos e escrever sobre eles. Chorar numa aula de yoga. Ter um orgasmo (ou vários). Beber um copo e sentir o corpo todo dormente. Dançar. Abraçar um amigo durante mais de 5 segundos. Vibrar com os breves triunfos do quotidiano. Ou seja, apanhar flores e guardá-las num livro. Não me esquecer de fazer uma festa por cada coisa boa que disse ou que fiz. Ser sincera sem ferir os outros. Dizer adeus quando chegou o momento. Agradecer a quem está e a quem fica mesmo quando tudo está muito mau. Pôr de lado aquela vontade de fazer coisas feias quando tenho o ego magoado. E não me recriminar tanto se o fizer. 

Só não vejo magia quando estou em pedaços. E isso é legítimo. Eu respeito-me por isso. Por me permitir viver os meus pedaços e de nem sempre me sentir inteira. O desafio é: também nesses momentos perceber que estar Aqui não é uma coisa minha. É algo emprestado que eu tenho de preservar e cuidar e devolver em bom estado. Pelo meio acontece tudo e mais alguma coisa - está tudo bem! Mãos no peito porque é preciso acolher quem sou Sempre! Essa é a única forma de estar em paz também com tudo o resto. 

Mas não me quero esquecer do verdadeiro motivo que me trouxe aqui hoje. Eu preciso de me lembrar de quem sou e da magia que tenho em todos os momentos... se estiver atenta. 

Ficar atenta. Porque a vida está a torcer por mim mesmo quando me esqueço de torcer por ela.

Ficar atenta. Porque às vezes é preciso pedir ajuda e não levar nada longe de mais é fundamental.

Ficar atenta. Porque a magia existe. 

Para mim não tem nada a ver com tirar coelhos da cartola. É mesmo só aquela sensação que tenho quando vejo um arco-íris ou quando abraço a minha filha e cheiro o cabelo dela e dou graças por ela existir e estar segura. Aquela sensação de frio na barriga quando sei que qualquer coisa boa está à minha espera... Porque está mesmo! 

A magia é também uma confiança inabalável no mistério da vida. Eu é que já não me lembrava.