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You can never hold back spring

On
March 30, 2011


"Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
– Alberto Caeiro –

{música no facebook da Ana}

::

"When spring came again
Perhaps no longer find myself in the world.
I would like to be able to judge now that spring is people
To assume that she would cry,
Seeing that she had lost her only friend.
But spring is not even one thing:
It's a way of saying.
Not even the flowers return, nor the green leaves.
There are new flowers, new green leaves.
There are other mild days.
Nothing returns, nothing repeats itself, because everything is real."
– Alberto Caeiro –

{music on Ana's facebook}

# Dia 145

On
October 18, 2010

{imagem}

"(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)"
– "TABACARIA" | Álvaro de Campos –

E assim eu vou comendo brigadeiro do tacho...

Brigadeiro:

Ingredientes:
- 1 lata de leite condensado
- 1 colher de sopa de margarina sem sal
- 7 colheres de sopa de Nescau (chocolate para misturar no leite) ou 4 colheres de sopa de chocolate em pó
- granulado de chocolate para envolver as bolinhas

Modo de Preparar:
1. Coloque num tacho fundo o leite condensado, a margarina e o chocolate em pó
2. Cozinhe em lume médio e mexa sem parar com uma colher de pau
3. Cozinhe até o brigadeiro começar a descolar da panela
4. Deixe arrefecer bem (ou coma quente do tacho)
5. Unte as mãos com margarina, faça as bolinhas e envolva-as com o granulado de chocolate
6. Coloque em forminhas

# Dia 107

On
September 12, 2010
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

– Fernando Pessoa –

{no facebook do Shima}

# Dia 96

On
September 01, 2010


{imagem via Herbarium}

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

"O meu Olhar" | Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

# Dia 92

On
August 26, 2010
Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha,
Porque alta vive.

– Fernando Pessoa [Ricardo Reis] –

# Dia 4

On
May 30, 2010


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

— Fernando Pessoa —

Encontrei o video no FB da Carina e a frase no FB da Clara. São uma inspiração.

Aqueles que têm a ousadia e pretensão de querer mudar as coisas ou o mundo, de contrariar as suas próprias rotinas e não ficar à margem de si mesmos, mudam automaticamente qualquer coisa.

As motivações das pessoas são diferentes. Aquilo que as move nem sempre é racional ou lógico. Muitas vezes só se consegue sentir o que está certo dentro de nós, não se consegue explicar nem fazer com que os outros sintam do mesmo modo. Muitas vezes, aquilo que está certo para nós é tão pouco racional que se torna frágil, e faz-nos pôr as nossas próprias verdades em causa. Mas, temos que esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares.

A minha escolha foi sofrida, mas, nem que seja pelas pessoas que tive oportunidade de conhecer, está a valer a pena.

Sr. Pessoa

On
January 21, 2010
A Inês, uma das minhas pessoas favoritas no mundo, amiga do coração, a quem admiro a força e a capacidade para me dizer frontalmente, por vezes duramente (como um carrasco) aquilo que preciso de ouvir, enviou-me um vídeo em que Maria Bethânia interpreta este poema de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa.

Alberto Caeiro é o amante da natureza, das coisas simples e belas da vida. De todos os heterónimos, este é o meu preferido... aquele que não tem medo de se entregar, que tem alma de criança e pureza de sentimentos.

"Num meio-dia de fim de Primavera | Tive um sonho como uma fotografia | Vi Jesus Cristo descer à terra | Veio pela encosta de um monte | Tornado outra vez menino | A correr e a rolar-se pela erva | E a arrancar flores para as deitar fora | E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu | Era nosso demais para fingir | De segunda pessoa da Trindade | No céu tudo era falso, tudo em desacordo | Com flores e árvores e pedras | No céu tinha que estar sempre sério | E de vez em quando de se tornar outra vez homem | E subir para a cruz, e estar sempre a morrer | Com uma coroa toda à roda de espinhos | E os pés espetados por um prego com cabeça | E até com um trapo à roda da cintura | Como os pretos nas ilustrações | Nem sequer o deixavam ter pai e mãe | Como as outras crianças | O seu pai era duas pessoas - Um velho chamado José, que era carpinteiro | E que não era pai dele | E o outro pai era uma pomba estúpida | A única pomba feia do mundo | Porque nem era do mundo nem era pomba | E a sua mãe não tinha amado antes de o ter | Não era mulher: era uma mala | Em que ele tinha vindo do céu | E queriam que ele, que só nascera da mãe | E que nunca tivera pai para amar com respeito | Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir | E o Espírito Santo andava a voar | Ele foi à caixa dos milagres e roubou três | Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido | Com o segundo criou-se eternamente humano e menino | Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz | E deixou-o pregado na cruz que há no céu | E serve de modelo às outras | Depois fugiu para o Sol | E desceu no primeiro raio que apanhou | Hoje vive na minha aldeia comigo | É uma criança bonita de riso e natural | Limpa o nariz ao braço direito | Chapinha nas poças de água | Colhe as flores e gosta delas e esquece-as | Atira pedras aos burros | Rouba a fruta dos pomares | E foge a chorar e a gritar dos cães | E, porque sabe que elas não gostam | E que toda a gente acha graça | Corre atrás das raparigas | Que vão em ranchos pelas estradas | Com as bilhas às cabeças | E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo | Ensinou-me a olhar para as coisas | Aponta-me todas as coisas que há nas flores | Mostra-me como as pedras são engraçadas | Quando a gente as tem na mão | E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus | Diz que ele é um velho estúpido e doente | Sempre a escarrar para o chão | E a dizer indecências | A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia | E o Espírito Santo coça-se com o bico | E empoleira-se nas cadeiras e suja-as | Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica | Diz-me que Deus não percebe nada | Das coisas que criou - "Se é que ele as criou, do que duvido." - "Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória. Mas os seres não cantam nada. Se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nada. E por isso se chamam seres." | E depois, cansado de dizer mal de Deus | O Menino Jesus adormece nos meus braços | E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro | Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava | Ele é o humano que é natural | Ele é o divino que sorri e que brinca | E por isso é que eu sei com toda a certeza | Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina | É esta minha quotidiana vida de poeta | E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre | E que o meu mínimo olhar | Me enche de sensação | E o mais pequeno som, seja do que for | Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo | Dá-me uma mão a mim | E outra a tudo que existe | E assim vamos os três pelo caminho que houver | Saltando e cantando e rindo | E gozando o nosso segredo comum | Que é saber por toda a parte | Que não há mistério no mundo | E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre | A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado | O meu ouvido atento alegremente a todos os sons | São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro | Na companhia de tudo | Que nunca pensamos um no outro | Mas vivemos juntos e dois | Com um acordo íntimo | Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas | No degrau da porta de casa | Graves como convém a um deus e a um poeta | E como se cada pedra | Fosse todo o universo | E fosse por isso um grande perigo para ela | Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens | E ele sorri porque tudo é incrível | Ri dos reis e dos que não são reis | E tem pena de ouvir falar das guerras | E dos comércios, e dos navios | Que ficam fumo no ar dos altos mares | Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade | Que uma flor tem ao florescer | E que anda com a luz do Sol | A variar os montes e os vales | E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o | Levo-o ao colo para dentro de casa | E deito-o, despindo-o lentamente | E como seguindo um ritual muito limpo | E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma | E às vezes acorda de noite | E brinca com os meus sonhos | Vira uns de pernas para o ar | Põe uns em cima dos outros | E bate palmas sozinho | Sorrindo para o meu sono.

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Quando eu morrer, filhinho | Seja eu a criança, o mais pequeno | Pega-me tu ao colo | E leva-me para dentro da tua casa | Despe o meu ser cansado e humano | E deita-me na tua cama | E conta-me histórias, caso eu acorde | Para eu tornar a adormecer | E dá-me sonhos teus para eu brincar | Até que nasça qualquer dia | Que tu sabes qual é.

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Esta é a história do meu Menino Jesus | Por que razão que se perceba | Não há-de ser ela mais verdadeira | Que tudo quanto os filósofos pensam | E tudo quanto as religiões ensinam?"

Alberto Caeiro

Querida Ibis:

On
August 12, 2009

"Desculpa o papel impróprio em que te escrevo; é o único que encontrei na pasta, e aqui no Café Arcada não têm papel. Mas não te importas não?

Acabo de receber a tua carta com o postal, que acho muito engraçado.

Ontem foi — não é verdade? — uma coincidência engraçadíssima o facto de eu e minha irmã irmos para a Baixa exactamente ao mesmo tempo que tu. O que não teve graça foi tu desapareceres, apesar dos sinais que eu te fiz. Eu fui apenas deixar minha irmã ao Avda. Palace, para ela ir fazer umas compras e dar um passeio com a mãe e a irmã do rapaz belga que aí está. Eu saí quase imediatamente, e esperava encontrar-te ali próximo para falarmos. Não quiseste. Tanta pressa tiveste de ir para casa de tua irmã!

E, ainda por cima, quando saí do hotel, vejo a janela de casa de tua irmã armada em camarote (com cadeiras suplementares) para o espectáculo de me ver passar! Claro está que, tendo visto isto, segui o meu caminho como se ali não estivesse ninguém. Quando eu pretendesse ser palhaço (para o que, aliás, o meu feitio natural pouco serve) oferecia-me directamente ao Coliseu. Era o que faltava agora! Que eu tolerasse a brincadeira de ser dado en spectacle para a família!

Se não havia maneira de evitares estares à janela com 148 pessoas, não estivesses. Já que não quiseste esperar-me ou falar-me, ao menos tivesses a cortesia — já que não podias aparecer só à janela — de não aparecer .

Ora eu não posso estar a explicar-te estas coisas. Se o teu coração (supondo a existência desse senhor) ou a tua intuição te não ensinam instintivamente estas coisas, eu, por mim, não posso constituir-me em teu professor delas.

Quando me dizes que o que mais desejas é que eu case contigo, é pena que me não expliques que tenho ao mesmo tempo que casar com tua irmã, teu cunhado, teu sobrinho e não sei quantas freguesas da tua irmã.

Sempre e muito teu

Fernando

31/7/1920

Esta carta foi escrita no esquecimento de que tu costumas mostrar as minhas cartas a toda a gente. Se me tivesse lembrado disso — acredita — eu tê-la-ia suavizado um pouco. Mas agora já é tarde; não importa. De resto nada importa.

F."

Onde Encontrei: http://pessoasdepessoa.wordpress.com/